Detesto que me roubem a solidão sem me dar em troca verdadeiramente companhia. (Friedrich Nietzsche).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Lágrima




A Lágrima

Eu era novo naquela cidade, e não estava muito satisfeito naquele lugar. Na verdade, eu nunca estava satisfeito em lugar algum. Tudo era monótono, qualquer lugar, qualquer pessoa, qualquer coisa.
Até que um dia, na monotonia do percurso diário para o trabalho, eu a vi. Acho que ela sempre esteve lá, mas eu nunca a tinha notado.
Bonita, cabelos de um louro escuro, e os olhos... grandes e acastanhados, impressionantes! Nunca em minha vida eu tinha visto olhos como aqueles. 
Passei a fingir que olhava a vitrine só para observá-la através dos vidros. Eu estava deslumbrado com a graça daquela garota, e ela sempre sorria pra mim, um sorriso discreto, tímido, enigmático.
Depois de uns dias, eu já não parava mais de pensar nela. Saía do trabalho e corria para chegar logo na  frente da loja, escapando de ser atropelado, ouvindo buzinadas e broncas dos motoristas, dando encontrões nos transeuntes, só para ficar mais tempo a observá-la. Uma noite, sentado em frente à janela do minúsculo apartamento alugado, olhando os círculos de fumaça do cigarro, um  pensamento me ocorreu, me lembrei de que sempre que eu passava por ali, tinha a sensação de estar sendo seguido. Por vezes cheguei a olhar para trás. Eram aqueles olhos, grandes e acastanhados, que  me seguiam quando eu passava. Ela me queria! E antes de eu a querer! Pensava nisso e na minha falta de coragem para ir até ela, e no que me fazia fugir, literalmente, sempre que eu via as luzes da loja se apagarem. Isso era uma coisa que me perturbava.
Alguns dias ainda decorreram. Eu continuava na minha rotina de observá-la, e ela a me olhar e a sorrir daquele jeito tímido. E então, finalmente, criei coragem.  'Amanhã, depois do trabalho', pensei. Esperaria ela sair e falaria com ela. Iríamos jantar, conversar, e depois, quem sabe, a um cinema. Eu falaria do meu amor, e a beijaria...
Então era isso, estava decidido! Naquela tarde, mal pude esperar o relógio bater cinco horas, saí correndo, e os quase atropelamentos e os encontrões tornaram a acontecer, até eu parar para comprar flores.
Pensei que seria melhor eu me acalmar. Fui até o bar em frente à loja e pedi um drinque, porém, de dentro do bar, sempre a observar,  notei algo estranho. Não a vi. E ela sempre estava lá, trabalhava lá! Imediatamente paguei o drink e saí, atravessei a rua e ao chegar em frente à loja, pude confirmar sua ausência. Já eram quase seis, ela devia estar se preparando para sair. Esse pensamento me tranquilizou. Esperei, andei de um lado para o outro, as flores na mão. A loja já ia fechar e nada dela aparecer. Resolvi entrar e perguntar. Estranhamente, ninguém a conhecia, todos me diziam nunca tê-la visto. Fiquei atordoado! Saí de lá sem saber o que pensar. As luzes da loja se apagaram, os funcionários começaram a sair, esperei até o último, e nada da minha garota! De repente me lembrei de que nem sabia o nome dela. Não sabia nada sobre ela, onde morava, telefone, nada! Não havia como encontrá-la. 'Se ao menos eu a tivesse seguido! E esse mistério de ninguém saber quem ela é!...  Ela me enganou! Fingiu gostar de mim me olhando e sorrindo daquele jeito, e se foi, e deixou seus colegas a rirem de mim, com estas flores na mão! Que idiota eu fui!' 
Eu estava arrasado, ferido, revoltado!
Ameaçava chover. Nada mais restando a fazer, fui embora. Atirei com força as flores numa caçamba de lixo parada na esquina.
Caminhava com as mãos nos bolsos, odiando aquele lugarejo!
Atrás de mim, de dentro da caçamba, em meio a braços, pernas, troncos e cabeças, um par de olhos grandes e acastanhados via eu me afastar. Uma lágrima rolou ali, antes que eu virasse outra esquina e desaparecesse da cidade.


10 comentários:

  1. Que triste, Ligeia. Achei que o conto ia 'pegar fogo' ao final, mas fazer o que, né? A vida é assim também...

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  2. A vida é assim também... Nada mais real.

    Obrigada, Gilberto!...

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  3. Olá, Ligéia! Gostei muito do seu blog: essência e conteúdo na medida certa. Parabéns pelo excelente trabalho! Quando tiver um tempinho, apareça no meu pequeno espaço; terei o maior prazer em recebê-la. Um abraço!

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  4. Muito obrigada, Nelson. Estive lá, gostei mutíssimo.

    Volte sempre, terei prazer em recebê-lo também.

    um abraço.

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  5. Você... sempre nos faz viajar e nos ver nos cenários que escreve... legal demais, parabéns!

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  6. Uau! Sua capacidade de escrever ultrapassa os gêneros e isso é encantador. Eu acho muito difícil isso. Não consigo. Acho que estou condicionado a mim mesmo.

    E o seu texto, valha-me deus! É de arrepiar a epiderme. Um texto fantástico!

    Parabéns!

    Abraço!

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  7. Moiselle, tenho essa "mania", a de colocar o narrador como uma câmera.
    Muito obrigada, de coração, pelo seu carinho.

    beijos!

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  8. Victor, nem sei como agradecer suas palavras. Escrevo e reescrevo. Não paro enquanto não me dou por satisfeita. Acho que isso faz o texto ficar ao menos bem feito, rs. E também sigo algumas teorias.

    Muitíssimo obrigada por gostar das minhas pretensões literárias. rs

    um abraço pra você.

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  9. Muito bem sacado, e com tristeza. Bjos

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  10. Há muitos mistérios na Tristeza.

    Muito obrigada, Reiffer.

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Costumo responder aos comentários aqui no blog. Todas as opiniões são bem vindas, e importantes. Gosto de saber das pessoas o que pensam, o que sentem, o que gostam. Você que lê e prefere não se manifestar, quem sabe um dia volte para me dizer algo. Não tenho pressa, eu espero.

Divagar é preciso...